sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Palestra silenciosa



O método zen de ensino consiste em manifestar a realidade e não em falar dela e deve sempre tomar-se a sério embora nunca seja solene. Para apreciar a sua autêntica capacidade de ensinar temos de ultrapassar a nossa tendência a exprimir tudo com palavras. As palavras são imprescindíveis; o problema é que confiamos tanto nelas que as utilizamos como substitutos da realidade, conformando-nos com um mundo de conhecimento indireto – conhecimento acerca de – em vez do impacto intenso e imediato do que realmente existe antes de surgirem os pensamentos e as palavras. Utilizando as palavras adequadas a cada situação podemos viver nossas vidas sem jamais experimentar nada diretamente. Os métodos fundamentais do zen estão dirigidos a ajudar o discípulo para que este veja que a maneira convencional de conceitualizar o mundo é útil apenas em certos casos, mas carece de solidez; quando se decompõe o mundo dos conceitos, o discípulo consegue experimentar a realidade sem mediações, descobrindo a inexpressável maravilha que é a própria existência.Pensa-se que o iniciador do ensino zen foi o próprio Buda quando fazia discursos diários aos seus seguidores no Parque do Pico dos Abutres. Numa manhã, ao chegar, encontrou mil e duzentas pessoas que o esperavam, sentadas, para o ouvir falar. Sentou-se diante delas em silêncio e assim permaneceu por muito tempo. Finalmente, sempre em silêncio, mostrou-lhes uma flor. Ninguém compreendeu este gesto exceto uma pessoa que sorriu, percebendo que o que ele queria dizer é que não havia palavras que pudessem substituir a flor viva. O Buda disse então: “Este é o verdadeiro caminho, e eu transmito-o a vocês.”Deste modo indicou que a experiência direta da existência – a experiência do “aqui e agora” – consiste numa profunda penetração mística.





Zen, o Budismo nas Terras do Japão, Anne Bancroft, Edições del Prado, Lisboa, 1997

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